Homenagem de uma Professora

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             Ontem e hoje perdi-me num abraço, numa lágrima, nuns olhos tristes pela perda de rede.
             E encontrei-me na certeza de ser a diferença, de fazer a diferença por segundos na Vida de alguém.
             Reencontramo-nos na doçura, no sorriso rasgado, na recordação de um Nós, na construção do Ser de cada um.
             Hoje terminais uma etapa e outra se seguirá onde os sonhos se transformam em projetos.
            O vosso Caminho, a vossa Vida é traçada por vós.
             Lembro-me dos desafios que vos lancei ainda pequenos, dos sonhos e dos projetos que desenvolvemos em conjunto, mas lembro-me dos desafios que vocês me lançaram e que como esses desafios me fazem hoje transformar os meus sonhos em projetos.
            Estou-vos grata por essa provocação!
            Nesse tempo, desafiada por vós, deixei-me levar pela cumplicidade e escrevi-vos num conto…escrevi um conto para vós e sobre vós e ele é vosso.
            Deixo em baixo um extrato…a parte mais importante.
            E vocês deixaram-me a certeza da importância de nos entregarmos a algo em que acreditamos. Foi assim que fostes premiados pelo vosso esforço e empenho num sonho que transformastes em projeto. Fostes premiados pelo vosso empenho, esforço, dedicação e espirito de equipa, pela vossa capacidade de comunicação e pelo espirito critico.
            Não há sonhos que se concretizem sem apoio e alguns vos apoiaram, para além de mim. A esses que fizeram parte deste percurso no 1.º CEB e em vosso nome, porque sei que o gostaríeis de fazer, o meu agradecimento:
ao Professor Jorge Dias, à Professora Carla Abreu, ao Professor Luis Artur Afonso, ao Professor José Crasto, à Professora Cristina Pontes, à Professora Mónica Carvalheira, à Drª Sandrina Machado ao Professor Luís Henrique Fernandes, à Weproductise e à sua equipa técnica pelo apoio no desenvolvimento de projetos na pessoa do Eng. António Mota Vieira.
           A vós, meus queridos, a minha gratidão pelo tanto que me ensinaram e deixo a memória do conto que é vosso.
(…)

            Podem não acreditar mas este livro nasceu de uma maneira estranha.

            Não sei se há maneiras certas de fazer nascer um livro?!

            Na verdade nem sei se os livros nascem. Sempre me referi assim a ele… “nasceu um livro”. Como se se tratasse de um filho. Calculo que os livros surjam de diferentes formas, nasçam. Começam sempre de formas tão diferentes! E aquela forma do “era uma vez…” já não se lê em lado nenhum.

          Já não nascem assim!

           Quando era miúda, da vossa idade, talvez, pensava que os livros surgiam de alguém muito sábio que dominava as palavras magistralmente. Alguém quase mágico que fazia com que as coisas acontecessem pelas palavras e eu quase conseguia tocar nas imagens que o escritor criava naquelas folhas de papel. Acreditava que o escritor passava horas e horas a pensar nas melhores palavras, nas mais eloquentes e requintadas ou então nas mais simples que ao mesmo tempo significavam duas coisas ao mesmo tempo.

            “Sim, por que os escritores às vezes complicam-nos a vida e dão duplo sentido a uma palavra!”

             (…)

            Neste livro nada aconteceu como eu pensava que pudesse acontecer.

         Não tive uma única ideia. Nada surgiu de mim. Quer dizer a ideia deste livro não surgiu de mim.

         Surgiu deles, assim, de repente.

          Até ao momento de o começar a escrever nem me parecia que fosse possível fazê-lo, assim, por encomenda, mas conforme o fui escrevinhando ganhou sentido. E nasceu o livro!

        Mas deixem-me explicar.

        Certo dia estava a ler para os miúdos uma história de gatos…

       “Sim, uma história de gatos, porque também há histórias de gatos. Aliás há histórias de tudo e mais alguma coisa!”

      …a ler uma história de gatos de uma forma entusiasta. Daquelas formas que parecem transformar-nos na personagem principal.           Naquele momento eu seria mais um gato rebelde de pelo eriçado e profundamente aborrecido com uma das minhas sete vidas quando foi preciso explicar à sala cheia de miúdos porque é que o autor decidiu começar a história pelo fim.

          “Pois é! Há quem faça nascer um livro pelo fim. O que também é algo de muito estranho. Quase tão estranho como a forma como nasceu este.”

           Perante aqueles olhitos esbugalhados de curiosidade sobre uma matéria tão difícil como é, “porque se lembra alguém de começar pelo fim”, lá lhes expliquei que por vezes nós, quem escreve, começa com uma ideia de como tudo acaba, deixando o leitor curioso para saber como tudo começou.

          Olharam-me ainda mais surpreendidos e pediram-me para lhes dar um exemplo. Então, um pouco a medo, li-lhes o início de um escrevinhanço que volta e meia faço sobre as lembranças que tenho da minha juventude.

         Os outros dezoito, seis rapazes e treze raparigas, em coro, exceto uma que não pronunciava palavra, seguiram-lhe o exemplo e desafiantes apoiaram-na no repto que me fazia.

        – Sim. Escreve um livro para nós!

       Fiquei perplexa e assustada.

       “Como é que se escreve para crianças? Não é uma tarefa simples.”

 

       – Devias escrever para nós.

        A miúda de cabelo comprido preto e escorregadio, preso num rabo de cavalo, ao fundo da sala, de olhos negros e desafiadores, atirou-me assim aquela frase. Como a cobrar-me uma divida para com eles. Ainda meia atordoada pelo impacto da frase na minha mente fiquei por momentos sem qualquer reação a olhá-la.

      (…)

        – Está bem. Eu escrevo-vos um livro. Só não sei como começar.

         – Começa como quiseres. Vai ficar muito bom, de certeza! – arremessou novamente a miúda de cabelo comprido preto e escorregadio, preso num rabo de cavalo, ao fundo da sala, de olhos negros e desafiadores.

        “Por vezes acontece isso a quem escreve. Haver alguém que acredita mais que somos capazes do que nós próprios. Acho que acontece a toda a gente e não só a quem escreve…”

        Passei o resto do dia atordoada com tais frases.

        Fui para casa a pensar nesse assunto. Como poderia eu escrever para crianças. Porque escrever pensamentos e guardá-los numa gaveta fechada ou numa pasta digital à qual ninguém tem acesso é muito diferente de, de repente, fazer nascer um livro. E não é um livro qualquer. Não senhor! É fazer nascer um livro, por encomenda, para crianças. Que responsabilidade! E como se faz nascer um livro? Pensei em mil formas: um ovo colorido que estalava e de onde ele saía; um que caía de uma árvore frondosa; um outro que nascia da terra como se fosse um cogumelo… até o imaginei trazido no meio de um lençol pendurado no bico de uma cegonha que vinha de Paris!

       Mas não sabia ao certo como fazer nascer um livro para crianças.

        Sentei-me então no baloiço de madeira do meu alpendre a olhar o mar com um bloco de notas a meu lado e um lápis, já meio gasto e algo roído.

        “Pois, eu também tenho esse hábito menos bom, menos bonito, que quase todas as crianças têm de meter o lápis à boca, enquanto se perdem entre sonhos.”

        Em cima das minhas pernas cruzadas estava o computador portátil aberto numa página de word. Uma página em branco.

        Dizem que o mar inspira. Então ,fiquei à espera que o mar me inspirasse e eu inspirava o seu ar de mar…

       (…)

        Extrato do Conto Infanto-Juvenil

in, O Garrato sem botas e outras desventuras

 

Sandra Lima

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