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 A Revolução Russa vista por uma camponesa

 A última visão desta revolução chega-nos pela mão da Leonor, do 9D. Esperamos que tenham gostado deste minissérie.


Lenine, Vladimir Ilich Ulyanov

Há momentos da história do nosso país de que nos orgulhamos, outros que preferimos não mencionar. Hoje, em 1921 e com 31 anos de idade, tenho todo o gosto em contar-vos a história de como o meu país se reergueu da miséria. O meu nome é Svetlana, sou uma camponesa e vou agora proporcionar-vos uma pequena viajem no tempo.

No início do século XX a Rússia era governada pelo czar Nicolau II, que impunha um regime autocrático (um regime político onde o rei ou imperador dispõem de um poder absoluto). A sociedade era extremamente hierarquizada: a nobreza e o clero eram os setores privilegiados, eram os principais portadores de terras e os principais apoiantes do governo do czar; os operários que viviam junto das fábricas nas grandes cidades (como Moscovo e a minha cidade natal S. Petersburgo) viviam sem condições de habitação, diariamente trabalhavam várias horas e tinham salários muito baixos; a burguesia era um setor pouco desenvolvido, a maior parte da burguesia Russa desempenhava trabalhos ligados às funções do Estado (tendo assim pouco poder económico e político) e a burguesia ligada à indústria  era estrangeira (os técnicos estrangeiros apostavam na Rússia para explorar as suas riquezas e mão-de-obra barata); os camponeses, como eu, viviam miseravelmente com duras condições de trabalho e sobrecarregados de impostos. A economia da Rússia era baseada na agricultura (que era praticada com métodos artesanais sendo assim pouco produtiva). A Rússia encontrava-se assim numa crise económica e o ambiente entre o povo russo encontrava-se tenso com este bastante recetivo a novos regimes políticos. Começaram assim a criar-se partidos políticos clandestinos: o Partido Operário Social Democrata Russo (divido em bolcheviques/radicais e em mencheviques/moderados e que defendiam uma sociedade sem classes, a proletarização da sociedade, a abolição da propriedade privada e a saída da Rússia da 1ª Guerra Mundial) e o Partido Constitucional Democrata (que defendia a instauração de um regime parlamentar à semelhança da Europa ocidental e defendia que a Rússia devia continuar a combater na 1ª Guerra Mundial).

Em 1905, após a derrota dos russos na guerra contra o Japão (1904-1905), guerra esta na qual o meu tio Dimitri combateu e sobre a qual ainda hoje faz relatos catastróficos, deu-se um aumento da degradação da economia. A população começou a organizar manifestações pacíficas na qual reivindicava melhores condições de vida (melhores salários), o fim da censura, a criação de um parlamento (Duma) e a criação de uma Constituição. Pessoalmente ficou-me marcado um episódio: o Domingo Sangrento. Foi no dia 22 de janeiro de 1905. A minha mãe, o meu pai e a minha irmã Rayssa decidiram participar na manifestação pacífica que se ia realizar em frente ao palácio de inverno do Czar. Na altura tinha 15 anos e a pedido da minha mãe fiquei em casa a tomar conta do meu irmão Russel que só tinha alguns meses de vida. Tornou-se um dos dias mais marcantes para a minha família, segundo os relatos da minha mãe, ela e os restantes protestantes foram recebidos a tiro o que causou bastantes feridos e mortos (um deles a minha irmã que não sobreviveu ao tiro que levou no peito). Após este episódio alguma esperança invadiu o povo Russo, o czar prometeu fazer algumas reformas: a criação de um parlamento (a Duma); a criação de uma Constituição e a liberdade de criação de partidos políticos. As promessas foram desapontantes e não nos forneceram o que desejávamos pois: o parlamento só possuía pessoas da total confiança do czar, que não permitiam algum tipo de mudança no governo que resolvesse a crise; a Constituição nunca chegou a ser criada e a liberdade de criação de partidos políticos foi logo retirada após críticas ao governo de czar e após a organização de greves. As manifestações em S. Petersburgo eram cada vez mais comuns e lembro-me que se ouvia dizer que, tal como na minha cidade, outras também eram palco de constantes protestos.

Em 1914 foi a gota de água…, a Rússia entrou na 1ª Guerra Mundial e o povo soube o que era realmente passar fome (havia falta de alimento e os impostos e o preço dos poucos produtos que existiam aumentaram drasticamente). O ambiente era tenso! O meu pai foi chamado para a Guerra, não ficou lá muito tempo, após cerca de 4 meses naquele exército que, segundo ele, era bastante mal-organizado, e depois de ter passado 14 dias sem nada para comer, ele e uns colegas desertaram e conseguiram fugir para Moscovo, cidade para a qual me mudei anos depois.

Foram mais alguns anos de crise, de fome e de ódio pelo governo. Eu fui crescendo, comecei a trabalhar, casei com Hugh (um operário de Moscovo) e tive filhos (filhos estes que tem a sorte de não se lembrar da vida dura que os pais deles tinham nos seus primeiros anos de vida).  A 23 de fevereiro de 1917, no quinto aniversário do meu filho mais velho Yerik, iniciou-se a Revolução Burguesa: o czar dissolveu a Duma, acusando os deputados de corrupção; iniciaram-se manifestações e greves, o czar ordenou ao exército que disparasse sobre os manifestantes, mas este voltou-se para o lado do revoltoso e forneceu-lhes armas. Deu-se assim o golpe de Estado que obrigou o czar a abdicar. Esta revolução foi importante para a história do meu país: instaurou uma democracia liberal parlamentar que pôs fim à censura e permitiu que Lenine o eterno líder do meu partido político, que se encontrava exilado na Suíça, regressasse à Rússia. Aos poucos a Rússia reerguia-se, mas ainda havia um conjunto de situações que continuavam a não agradavam ao povo. Kerensky (líder do governo provisório formado após a revolução de fevereiro de 1917) decidiu manter a Rússia na 1ª Guerra Mundial e apoiava os direitos individuais e a propriedade privada (que privilegiava os nobres, os membros do clero e a burguesia).

Foi permitida a criação dos sovietes (conselhos populares constituídos por soldados, camponeses e operários, que funcionavam como contrapoder, isto é, poder paralelo e de pressão sobre o governo burguês) comandados pelos Bolcheviques que defendiam um regime político baseado no marxismo-leninismo (interpretação de Lenine da doutrina filosófica de Karl Marx que defendia uma sociedade sem classes e a ditadura do proletariado).

A 27 de outubro de 1917 iniciou-se um dos momentos mais esperados por grande parte do povo russo. Lenine, com o apoio de Trotsky, iniciou uma revolução, a Revolução Bolchevique: foram presos os ministros do governo provisório burguês; a Duma foi dissolvida e foi instaurado o poder socialista. Lenine tornou-se o chefe do Concelho de Comissários do Povo (órgão máximo do poder revolucionário – Poder executivo) e tomou um conjunto de medidas que, na minha opinião eram as necessárias: a paz mundial com a  Alemanha e retirada da Rússia da 1ª Guerra Mundial através do tratado de Brest Litovsk; a nacionalização da banca e do consumo externo; o fim da propriedade privada, ou seja, as minas, as fábricas e os territórios foram nacionalizados sem o pagamento de indemnizações aos seus proprietários; a produção agrícola passa a pertencer ao Estado, exceto a produção para consumo próprio e coloca nos cargos do governo os mais destacados líderes bolcheviques (Trotsky – Comissário do Comércio Externo e da Guerra, Estaline – Chefe do Comissariado das Nacionalidades).

Houve setores da sociedade que não se conformaram com o comunismo (o novo regime que se estava a instaurar). A nobreza, o clero e a burguesia (mais conservadores) iniciaram um processo contrarevolucionário e formaram um exército: o exército branco. Para defender o comunismo, os bolcheviques formaram o exército vermelho. Iniciou-se assim uma violentíssima guerra civil, que durou cerca de 2 anos (1918/1920). Durante o período de guerra foi instaurada na Rússia a radicalização das ideias revolucionárias Bolcheviques o “Comunismo de guerra” que levou: à abolição de todos os partidos políticos à exceção do Partido Comunista Bolchevique (partido único); à instalação da censura; à criação de uma polícia política – a Tcheka e à perseguição, prisão, tortura e morte dos opositores políticos. Após a instalação do comunismo de guerra questionei muitas vezes, em segredo, se este seria o rumo certo para o nosso país e se afinal a instauração do comunismo seria o mais acertado. Perdia-me um bocado nestas dúvidas, mas logo encontrava a resposta quando me lembrava das vezes em que o Hugh voltava para casa depois de trabalhar inúmeras horas diárias e das vezes em que passamos fome porque maior parte do pouco dinheiro que possuíamos ia para o governo. No final de tudo o exército vermelho saiu vencedor!

Apesar dos Bolcheviques continuarem a governar a Rússia as relações entre o governo e o povo estavam fragilizadas e o povo estava descontente. Lenine, decidiu então alterar a sua estratégia e criar um Novo Programa económico (NEP) no qual se tornou recetivo a algumas ideias capitalistas: foram permitidas pequenas unidades privadas de produção agrícola e industrial; foi estabelecida alguma liberdade de comércio interno (como por exemplo a venda livre de produtos agrícolas nos mercados nacionais) e foi permitida a entrada de técnicos e capitais estrangeiros no país para modernizar a indústria e aumentar a produtividade. A boa relação com o povo foi restabelecida e agora em 1921 estamos, depois de mais de 15 anos de crise, a caminhar para anos mais prósperos. A luta de classes, a chegada do proletariado ao poder, que permitiu a formação de uma sociedade sem classes e a consequente instauração do comunismo, foram atitudes indispensáveis para a ascensão da Rússia como país. O Comunismo salvou o povo, tornou-nos iguais, acabou com os exploradores e os explorados.

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