Rebobinar – Tempos de covid

5
(11)

DOS DIAS QUE PASSAM
LEONOR ARAÚJO

Na escola falamos da Peste Negra, da Varíola e da Gripe Espanhola, das crises que geraram, das consequências económicas, demográficas e sociais que causaram e do seu impacto a nível mundial. Imagino que de aqui a 10 anos, já não estejamos a viver uma pandemia e acredito que na escola, talvez na disciplina de história, se fale da Pandemia de Covid-19.

Qualquer pessoa que como eu tenha uma lembrança vivida desta época vai lembrar esses tempos com desdém. No entanto, também acredito que muitas crianças com os seus 12 anos de idade questionem fascinadas o professor sobre como foi viver em tempos de covid. Por isso vamos rebobinar tempos de covid.

Tudo começa quando em dezembro de 2019: a China anuncia o primeiro caso de covid-19, uma doença infeciosa desconhecida que surgira na cidade de Wuhan. Descrita pelos médicos da época como uma “pneumonia viral desconhecida que se manifestava após sintomas como febre, arrepios e dores no corpo”, viria a ser muito mais do que isso. Mais tarde veio a descobrir-se que esta nova doença seria provocada pelo vírus SARS-CoV-2 um vírus complexo e de origem incerta. A incerteza quanto à origem do vírus que viria a causar todo este transtorno levou a uma das primeiras consequências da pandemia: A intensificação do Negacionismo. “O Vírus é uma mentira” ou “Isto é uma estratégia económica Chinesa, os chineses criaram o vírus em laboratório” eram frases enganadoras que se liam nos meios de comunicação, quando o vírus se alastrou a nível mundial, situação que não tardou a acontecer.

A 13 de janeiro é confirmado o primeiro caso de covid fora da China, na Tailândia, a 15 de janeiro é confirmado o primeiro caso no Japão, a 21 de janeiro nos Estados Unidos da América, a 22 de janeiro em Macau, a 24 janeiro em França, a 25 de janeiro na Austrália, a 28 de janeiro na Alemanha, a 29 de janeiro na Finlândia, a 31 de janeiro na Itália, a 2 de fevereiro nas Filipinas, a 14 de fevereiro no Irão, a 26 de fevereiro no Brasil, a 2 de março em Portugal. O vírus espalhava-se rapidamente a uma velocidade inacreditável e incontrolável e dizer que o vírus foi menosprezado seria injusto para com as organizações de saúde, ninguém podia imaginar o que estava para vir.

            A 11 de Março com um total de 118 mil casos positivos e 4291 mortes por covid-19 a nível mundial, a OMS (Organização Mundial de Saúde) declara o Coronavírus uma pandemia.

O Covid ganhava poder. Era um bichinho papão que não conseguíamos ver, mas do qual tínhamos imenso medo. Era um forte adversário de guerra, adaptava-se facilmente às condições do meio. Não se deixava vencer.  Era uma doença imprevisível. Tanto podia pôr alguém às portas da morte como podia ser semelhante a uma gripe ou até uma constipação. Sintomas como tosse, febre, dor de cabeça, dores no corpo, perda de olfato ou perda de paladar eram motivos para entrar em alerta e fazer o famoso teste à covid.

Ninguém quer correr riscos, as máscaras tornam-se obrigatórias, o teletrabalho passa a ser algo comum, voltamos aos anos 60 com a retoma da telescola, mas, no entanto, a tecnologia ganha poder uma vez que a escola online passa a ser a realidade dos jovens (as escolas fecham a 16 de março de 2020, duas semanas antes das férias da Páscoa, este seria o tempo necessário para controlar os casos de covid. O melhor cenário não se verificou e as escolas mantiveram-se fechadas até ao final do ano com exceção dos alunos de 11º e 12º anos).

Portugal entra pela primeira vez em estado de emergência a 19 de março de 2020 e são tomadas várias medidas com o objetivo de diminuir a proliferação de casos de covid. Estado de emergência é sinónimo de #vaificartudobem e #fiqueemcasa, movimentos que se espalharam nas redes sociais e que tentavam mostrar que todos estávamos a passar pelo mesmo momento difícil e que só um esforço comum por cumprir as medidas colocadas pelo governo poderia trazer-nos a normalidade de volta.

O ambiente vivido pode ser descrito, na minha opinião, como pânico disfarçado pela segurança de estar entre as paredes de nossa casa, cansaço alimentado pela brusca mudança do quotidiano (a sobrecarga do sistema de saúde que se traduz no aumento do trabalho dos médicos e enfermeiros, todas as restantes profissões têm de se adaptar ao período pandémico) e tristeza disfarçada pela esperança de dias melhores.

Não foram tempos fáceis para ninguém. Nenhum país teve facilidade em lidar com esta calamidade. As mutações/mudanças do vírus levaram a que, de repente, o ano não se dividisse apenas em dias, semanas e meses, mas também em vagas caracterizadas por determinada variante do vírus.

Nas vagas quase todos os países tiverem debaixo dos holofotes pelos piores motivos: na primeira vaga destacou-se, pelo elevado número de casos positivos e mortes por covid, a China e a Itália, na Segunda a Espanha, os Estados Unidos e o Brasil, na terceira vaga Portugal, na quarta vaga o Reino Unido, na quinta….

A verdade é que interiormente todos viajávamos num comboio a vapor de esperança cujo carvão era a vacina. Afinal a única maneira de acabar com toda esta situação era imunizando a população. O processo de vacinação e de criação de vacina foi demorado para quem a aguardava (a população mundial sua generalidade), mas consideravelmente rápido para a situação em que nos encontrávamos. Em novembro de 2020 as certezas de uma vacina eficaz aumentam após a Pfizer e a Moderna (empresas que trabalhavam na produção de vacinas) anunciarem resultados bastante positivos.

A Vacinação começa em dezembro no Reino Unido e mais tarde nos restantes países do mundo. A certeza de que tempos melhores se aproximam invade o pensamento de todos. Mas, o covid não é um conto de fadas, a certeza de uma vacina eficaz não foi suficiente para pôr fim à pandemia. Em 2021, Portugal volta ao estado de emergência com as escolas a fechar mais uma vez, pelo segundo ano letivo, mas desta vez não até ao final do ano letivo.

Como, era de esperar, todo este filme hediondo teve consequências um tanto ou quanto assustadoras e preocupantes: “Covid-19: pandemia agravou as desigualdades na repartição da riqueza em Portugal” – Jornal de Negócio; “Enfermeiros estão exaustos, sindicato alerta para possível rutura dos centros de saúde” – Público; “Coronavírus origina onda de xenofobia contra chineses”- RTP; “Pandemia desperta racismo contra chineses”- Expresso; “Covid-19: Professores estão a ficar exaustos alerta sindicato” -SIC Notícias; “Crise provocada pela pandemia atirou 400 mil pessoas para a pobreza” – Diário de Notícias; “Pandemia teve impacto Negativo na saúde mental dos jovens portugueses” – Público; “Pandemia: efeito na saúde mental de crianças e  jovens poderá prolongar-se” – Diário de Notícias.

A pandemia começou há 2 anos, 1 mês e 1 dia, tendo por base o dia em que escrevo este texto. Estamos no decorrer do terceiro ano letivo com covid. E fazer um teste à covid normalizou-se, já não é considerado um frete ou exatamente a possibilidade de estar doente. Tornou-se semelhante ao cartão de cidadão, em determinadas situações precisamos de o apresentar. Quase toda a gente que conheço foi vacinada e no geral a situação parece estar menos preocupante quando comparada aos anos anteriores. O alarmismo e o medo diminuíram e parece que caminhamos para a normalidade. Embora admita que, agora, após 2 anos, 1 mês e 1 dia daquilo a que considerava o meu dia a dia normal, já não saiba bem o que é a normalidade. Para bem ou para mal esta pandemia mudou-nos, por isso será que o nosso conceito de normalidade será o mesmo que há 2 anos e tal atrás? Honestamente, acho que não, mas depois de toda esta situação tenho certeza de que não será pior!

Leonor Araújo

Gostaste desta publicação?

Deixa a tua votação! Ou se quiseres, comenta abaixo.

Média das votações 5 / 5. Vote count: 11

Ainda sem votos. Queres ser o primeiro?

Ai é?

Segue-nos nas Redes Sociais